Direito de escolha
Vejo um debate na televisão sobre a questão do aborto. Há uma pessoa que apoia o aborto e outra que é contra. Na discussão o apoiante diz que é uma questão de escolha e de direito. A mulher tem que ter o direito de escolher e optar. Numa democracia plena, as mulheres devem ficar livres para escolher abortar ou não.
Escuto na rádio que a liberalização do aborto é uma questão fulcral, até mesmo para combater a corrupção e fundamentalmente o dinheiro que circula sem ser tributado. A preocupação de uma defensora do sim é com a questão fiscal. Na mesma toada, Manuel Alegre, deputado pelo partido socialista diz que é uma questão de liberdade. As mulheres devem ter o direito de optar ou não por ter uma criança. Fiquei a pensar nestes aspectos e se é uma questão de opção e liberdade, alguém que deseja praticar a eutanásia também tem este direito de escolha e esta liberdade. É uma questão de democracia.
Creio que acima de tudo, o aborto passa por uma questão moral. Contudo, vivemos num país de tradição cristã, mas que não vive a moral cristã. O país é laico, apesar de forte influência católica. A igreja católica assume uma postura beligerante e pede para que as pessoas votem pelo não. O povo evangélico por ser minoria, a sua voz quase não se ouve. É um facto que também é a favor do não, mas creio fundamentalmente que, tanto católicos como evangélicos precisamos ser enfáticos na nossa luta contra o aborto, mas precisamos ser pessoas que demonstram amor profundo para com as pessoas.
Antes de seguir este pensamento, quero voltar a questão da escolha. A mulher tem o direito de escolher abortar. Mas e o pai? Será que o pai não tem o direito de querer ver nascer o seu filho? O homem é esquecido em toda a questão. É triste ver que o pensamento é unilateral. Não quero nem falar no direito do feto. Contudo, enquanto penso neste aspecto lembro-me da canção de Vinícius de Moraes e Toquinho «O filho que eu quero ter». Mas e se a mulher não quiser, como é que ele fica?
O aborto é uma questão muito séria e delicada. Deve ser discutido abertamente, mas creio que devemos seguir o exemplo do doutor C. Everett Koop que era um absolutista em questões como aborto e homossexualidade que aprendeu «durante o exercício da função de chefe do Departamento de Saúde, que os absolutos cristãos não podem ser sempre impostos sobre aqueles que não compartilham dos pontos de vista cristãos. Ele aprendeu, porém, a compaixão e a misericórdia para com os excluídos e amor pelos inimigos.» É fundamental condenarmos o aborto, mas amarmos as mulheres que abortam.
Particularmente sou contra o aborto. Contudo, como alguém que já viveu esta experiência de perto, sabe o sofrimento e a dor que as mulheres sofrem, solidarizo-me às mulheres, mesmo não aprovando o que fazem. Contudo, minha maior luta é contra aqueles que enriquecem às custas do sofrimento destas mulheres que por uma decisão pessoal, levadas por uma série de contingências são exploradas pelas clínicas da morte. Porém, engana-se quem pensa que a legalização do aborto irá fazer com que o aborto clandestino deixe de existir. Ele continuará existindo, pois muitas jovens e mulheres maduras não terão a coragem de assumir publicamente que irão abortar porque elas têm muitas coisas que preservar.
Sou contra o aborto. Sou contra aqueles que o realizam. Contudo, amo e Deus sabe que é verdade, as pessoas que recorrem a tais práticas. Desejo que elas conheçam a misericórdia do Senhor.
Abomino as clínicas abortivas. Não concordo com os profissionais que se deixam seduzir pelo dinheiro e passam a matar crianças ainda por nascer e muitas vezes mulheres que em desespero os procuram. Não concordo com tal atitude, mas amo o ser humano que se encontra a agir assim. Sei que se ele conhecer a graça de Deus, toda a sua vida será transformada. Também é verdade que amo os profissionais que o realizam. Amo-os enquanto seres humanos e sinceramente, peço a Deus que eles possam vir a mudar de opinião e de vida. Espero que eles sejam como o doutor Bernard Nathanson, que ficou conhecido como o rei do aborto e por fim reconheceu que havia feito a pior escolha. Espero que estes profissionais possam dizer como Bernad Nathanson: «Não posso dizer como estou agradecido nem a dívida tão impagável que tenho com todos aqueles que rezaram por mim durante todos os anos nos quais me proclamava publicamente ateu. Rezaram teimosa e amorosamente por mim. Estou totalmente convencido de que suas orações foram escutadas. Conseguiram lágrimas para os meus olhos.» Que os profissionais digam isto, mas que nós cristãos intercedamos por eles diariamente.
A grande maioria diz que é um direito de escolha. Concordo plenamente. Eu escolho a vida. Escolho lutar pela vida das mulheres, das crianças e dos muitos profissionais que estão perdidos e seduzidos por ganhar o mundo inteiro, mas não percebem que estão a perder suas almas. Quero unir minha voz aos que afirmam que é uma questão de escolha e juntamente com eles dizer que escolho a vida. Escolho amar a todo ser humano e prezá-lo pelo que ele é.
Livremente e no meu direito de escolha digo não ao aborto. Contudo, de coração aberto recebo as pessoas e quero caminhar com elas para ajudá-las a tratar das suas feridas. Eu escolho livremente criar pontes que me unem ao meu semelhante e não vou abrir mão disso.
Sou cristão e como cristão quero viver coerentemente com a minha fé, mas sei que os meus valores não são os valores da minha sociedade. Não me deixarei vencer pelos padrões da sociedade, mostrarei a graça do Senhor na esperança que eles livremente possam optar pela vida. Jesus veio para trazer vida e espero que esta vida brote no coração das pessoas que jazem perdidas.
Eu escolho dizer não ao aborto. Escolho dizer sim às pessoas e amá-las independente de qualquer coisa. É esta a minha escolha e a faço livremente, faço-a seguindo o exemplo do meu Senhor que odiou o pecado, mas amou o pecador.