O que o pastor espera da Igreja?
Pr. Marcos Amazonas - Coimbra - Portugal.
A minha caminhada pastoral teve início na cidade de Manaus, mas lá não pastorei directamente nenhuma igreja. Fui pastor auxiliar do meu pai e isso porque a igreja teve misericórdia de mim, pois o meu visto não saia para poder vir pastorear em Portugal. Sendo assim, a igreja deu-me uma oportunidade de cooperar no ministério dela. Aliás, a Igreja Batista Redenção é a igreja do coração. Ali eu fui achado pelo Senhor. Ali fui baptizado e foi nela que assumi o compromisso de servir o Senhor como pastor e foi ela que me recomendou para o seminário. Recomendou e sustentou com amor. Sustentou-me durante vários anos como seu missionário em Portugal. Portanto, não posso nunca esquecer a minha querida Igreja Batista Redenção.
Confesso que tive o privilégio e a oportunidade de nos meus dois primeiros ministérios, ser pastor auxiliar. Fui auxiliar do meu pai, o Pastor Nehemias Coimbra dos Santos e em Portugal fui auxiliar do Pastor Daniel Eduardo Fontes Machado. Meu ministério em Portugal teve início na cidade de Oliveira do Hospital, um local bucólico. Ali aprendi muito e sou grato a Deus pelo tempo que passei com aqueles irmãos. Eles sabem o quanto eu os amo e eu também sei o quanto sou amado por eles.
Foi em Oliveira do Hospital que eu aprendi a conversar com os irmãos. Eu não era o pastor que estava longe deles, mas próximo e cheio de defeitos e mazelas e eles viam isso. Portanto, aprenderam a olhar para o pastor não como um semi-deus, mas como alguém de carne e osso. E foi por causa desta experiência fantástica e marcante na minha vida que penso ser essencial dizer para a igreja o que o pastor espera dela.
Não faço nenhum arrazoado teológico. Não quero falar de experiências profundas e dar exemplos de outras pessoas. Quero apenas dizer o que eu penso e o que particularmente espero da igreja. Aliás, o que escrevo não é novo, pois no ano de 2002 escrevi uma pastoral a dizer o que esperava da igreja. O primeiro parágrafo dizia o seguinte: É bom para o pastor saber o que a igreja espera dele. É excelente para o ministério saber quais as expectativas das pessoas. Assim, poder-se-á trabalhar com noção do que deve ser realizado. Contudo, o que os pastores esperam da igreja? Será que a igreja já parou para reflectir sobre o outro lado da moeda?
As ideias continuam a ser as mesmas. Só foram ampliadas e talvez melhoras. Digamos que é uma reedição revisada e ampliada. Contudo, o que o pastor espera da igreja?
Eu particularmente espero que a igreja compreenda que sou um ser humano como outro qualquer . Não quero e nem desejo ser olhado como alguém que está acima de qualquer suspeita. O meu desejo é que a igreja compreenda a minha humanidade. Este aspecto é fundamental, pois faz com que sejamos vistos como um igual e não como um ser de outro mundo.
Compreender a minha humanidade é poder ser visto como alguém normal, cheio de defeitos e falhas e tenha certeza, eu as tenho e são muitas. Espero que a igreja compreenda que sou um pecador como os demais, ou mesmo como afirmava Paulo e compreendendo os meus pecados, também digo como ele: "Fiel é esta palavra e digna de toda a aceitação; que Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores,
dos quais sou eu o principal" (1 Tm 1.15). Sou pecador e isso é muito claro para mim. Sou terrível e não tento esconder esta realidade. Pastor também erra e passa por provações e tentações, mas também tenho consciência de que fui salvo pela graça de Deus. Sou pastor, mas o sou pela graça de Deus. E aqui também lembro-me das palavras de Paulo: "Pois eu sou o menor dos apóstolos, que nem sou digno de ser chamado apóstolo, porque persegui a igreja de Deus. Mas pela graça de Deus sou o que sou; e a sua graça para comigo não foi vã, antes trabalhei muito mais do que todos eles; todavia não eu, mas a graça de Deus que está comigo." (1 Co
15.9-10). Pois é, sou o que sou pela graça de Deus.
Quando assumo minhas fragilidades e fraquezas, estou a pedir que a igreja entenda a minha humanidade e não ponha sobre mim um fardo insuportável, que eu não consiga carregar. O que peço é que a igreja manifeste misericórdia e graça a mim enquanto ser humano, membro do corpo de Cristo que serve à igreja como pastor.
Eu espero que a igreja se alimente . Creio que todo pastor espera isso, pois senão não vale a pena investir tempo em estudo e preparo. Há neste momento muita gente a sofrer de anorexia e bulimia espiritual. Há pessoas que não se alimentam da Palavra de Deus. Há pessoas que estão a compactuar com o pensamento hodierno e pensam que a igreja é apenas um ponto de encontro. Contudo, a igreja é o povo de Deus, é uma família que se junta à volta da mesa para se alimentar. O pastor prepara-se e tenta alimentar a igreja, mas o problema é que a maioria das pessoas já não absorvem mais o ensino da Palavra de Deus. Espero que a igreja venha a ter fome e sede de Deus (Sl
42.1-2).
Esse desejo surge porque como pastor eu viro também um mestre da culinária. Para alimentar as ovelhas eu preciso então conduzi-las até o local do alimento. Eu preciso preparar a comida para elas. É por isso, que é de fundamental importância ter um local tranquilo para que possa debruçar-me sobre o essencial para poder dar um alimento que supra todas as necessidades que o povo precisa. Mas, preciso ter cuidado, pois não posso oferecer qualquer alimento. Não posso entrar na onda do fast food, pensando que, qualquer coisa está bem e assim não alimento o rebanho de correcto.
Alimentar o rebanho é muito mais que chegar dominicalmente e pregar. É investir tempo em oração e estudo da Palavra. É ter um ambiente tranquilo, onde ovelha e pastor tenham condições de descansar. Nessa ambiente tranquilo, onde as ovelhas ficam seguras, o pastor pode dedicar-se ao essencial que é oração e estudo da Palavra (Act
6.1-4). Preciso parar para experimentar o alimento, senti-lo e ver como é bom para poder servir ao povo. "Preciso encharcar-me das Escrituras; preciso de uma imersão nos estudos bíblicos. Tenho necessidade de horas de reflexão nas páginas das Escrituras, assim como de lutas pessoais com o significado das mesmas. Isso exige muito mais tempo do que para preparar um sermão."
[1]
Quero que a igreja se alimente bem. Não quero oferecer conhecimento filosófico. Não quero oferecer meias verdades. Quero alimentar o meu povo com a Palavra de Deus. Não quero ter nada de sabedoria humana e não estou contra o saber, mas quero que a igreja alimente-se com o alimento espiritual, mas para isso eu preciso ter a sabedoria que vem do alto (Tg
3.17-18).
Espero que a igreja cresça. Nenhum pastor deseja que a igreja fique sempre a mesma. Nenhum pastor deseja ver a igreja na qual serve a desfalecer. Mas o processo de crescimento é lento e doloroso. Portanto, é fundamental ter paciência.
O crescimento é integral. Portanto, o pastor espera que a igreja cresça na adoração. É um crescimento para cima. O crescimento que nos faz ver quem somos e quem é o Senhor. Ele é o único digno de receber adoração. Ele deve ser exaltado. Crescer na adoração é aprender a cultuar a Deus. É deixar de olhar para si mesmo. Também é fundamental que a igreja cresça na doutrina. A verdadeira adoração só acontece quando a igreja está bem fundamentada doutrinariamente. Crescer na doutrina é crescer para baixo. É ter fundamentos sólidos. É saber no que temos crido. É ter a certeza de quem é o Senhor e o que Ele é para nós. A igreja que cresce na adoração e na doutrina, logo crescerá na comunhão. É esta a nossa base. Jesus fundamentou o seu ministério neste aspecto. Basta lembrarmos o encontro que ele teve com um mestre da lei que o questionou sobre o grande mandamento. É melhor lermos o texto: "
Mestre, qual é o grande mandamento na lei? Respondeu-lhe Jesus: Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento. Este é o grande e primeiro mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a lei e os profetas
." (Mt 22.36-40). Sem querer fazer uma exegese do texto, quero apenas focar alguns aspectos importantes que fundamento o que estou a dizer. Aquele que ama a Deus, vai adorá-lO. Vai tê-lo como o tudo de sua vida. Será alguém que conhece o Senhor, sabe porque O ama e O adora (doutrina). Quem compreende o amor de Deus, desenvolve um sentimento correcto sobre sua pessoa e quem desenvolve uma relação correcta consigo mesmo, irá amar o outro de modo verdadeiro e pleno (comunhão). A igreja deve crescer numericamente. É claro que desejo realizar baptismos. É claro que desejo ver conversões. Contudo, o crescimento numérico não pode ser em detrimento dos outros aspectos aqui focados. Creio que hoje há muito inchaço e pouco crescimento. Quando questionamos as pessoas sobre à razão de sua fé, elas não sabem explicar ou então dizem coisas sem nexo. Isto só indica que não há crescimento no essencial. Tem sido comum ver as igrejas com muito gente para o "louvor", mas depois saem. As pessoas desejam o espectáculo, mas não o culto. Quando alguém deseja louvar o Senhor, louva-O em todo o culto. Compreende que cântico é apenas mais uma expressão de louvor e adoração. É essencial que a igreja seja ensinada neste aspecto. Louvor é todo o culto. O nosso culto é um acto de louvor a Deus, mas os cânticos são apenas uma pequena peça deste todo. O crescimento numérico não pode ser fruto da emoção. Não pode surgir como efeito de uma emotividade e de um processo massificativo, onde se passou uma hora a cantar e depois aparecem os anúncios e outras coisas e pedem que o pastor pregue dez minutos. O crescimento numérico acontece quando o evangelho é pregado e não podemos esquecer isto. A salvação é pelo ouvir, mas ouvir a Palavra de Deus (Rm
10.17). É fundamental ter tempo para a exposição da Palavra de Deus. Eu espero que a igreja ouça a Palavra de Deus. Espero que ela fique quieta para ouvir o Senhor a falar. Não quero que me escutem, não quero que escutem discursos, quero que a igreja escute o Senhor a falar, mas para isso ela deve ficar reverentemente, precisa ficar quieta e sossegada para que o Senhor fale ao seu coração. Se ela fizer isso, o crescimento acontecerá naturalmente.
O crescimento é da igreja. Portanto, cada membro deve desenvolver a sua função. Precisa fazer a sua parte. É essencial que cada crente venha a desenvolver o seu dom para promover a edificação do corpo.
Espero que a igreja esteja comigo. Que ela caminhe comigo. Como pastor, sou aquele que deve procurar conduzir à igreja, mas esta é uma responsabilidade muito grande. Contudo, ao assumi-la, é fundamental que a igreja esteja comigo e juntos sigamos o mesmo caminho. Contudo, isso só será possível se houver confiança e a igreja compreende que a orientação é bíblica. Uma igreja não pode fazer o que lhe apetece. O pastor não pode fazer o que lhe apetece. É preciso lembrar que o pastor na realidade é pastor-ovelha, ovelha-pastor e precisa seguir às orientações do Sumo Pastor que é Jesus Cristo. Agora é verdade que a igreja deve seguir o seu líder. É natural que a igreja então seja o reflexo do seu líder.
Querer que a igreja esteja comigo é deseja que a igreja tenha a visão do Reino. Contudo, se eu deixar de ter esta visão, que a igreja em amor chame a minha atenção para que possamos trilhar no caminho correcto. Estar comigo não é concordar com tudo o que eu faço. Não é aceitar tudo o que digo, mas é caminhar lado a lado. É permitir que eu esteja em seu meio. É poder vê-los chegarem a mim para chorar suas tristezas e também partilhar suas alegrias.
Ter a igreja comigo é saber que possa estar no meio dela. Sei que sou ouvido e contado. Não sou um profissional da fé, mas um irmão em Cristo Jesus. É poder ter voz activa e ser conselheiro. É ser o amigo para todas as horas e não apenas alguém que recebe em seu gabinete. É estar aberto para a caminhada tanto na alegria como na tristeza.
Eu vivi isto em Oliveira do Hospital e tenho vivido isto aqui em Coimbra. Tenho tido o privilégio de partilhar alegria e tristezas. Tenho chorado com os meus irmãos e eles comigo. A minha dor é a dor deles, mas a deles também é a minha.
Espero que a igreja esteja unida. Pastor não gosta de ver confusão. Pastor não divide o rebanho para reinar. O pastor procura desenvolver a comunhão entre a igreja. Sendo assim, a luta é para fazer com que as pessoas estejam unidas. O pastor espera que a igreja esteja a sentir o mesmo no Senhor. Espera que a igreja esteja em comunhão (Sl 133). A comunhão é fruto da união. Estar unido no mesmo propósito, na mesma visão e no mesmo amor. É muito triste o pastor reconhecer que há partidarismos na igreja e principalmente que a desunião é uma realidade no seio da igreja. A igreja deve ser unida, até porque uma das grandes declarações bíblicas sobre igreja é que ela é um corpo e o corpo deve estar unido. Deve trabalhar conjuntamente para o bom crescimento de si mesmo.
Estar unido não significa viver no marasmo e numa passividade constante. É claro que há problemas e conflitos de ideias, mas estes são tratados em amor. Estar unidos é saber discordar de ideias sem agredir o seu irmão. É saber ouvir o outro e dedicar-se a ele com todo afinco.
O pastor espera que a igreja esteja unida no trabalho. Não é estar unidos para participar de um clube social, mas é estar unidos para crescerem na graça e no conhecimento do Senhor Jesus.
Espero que a igreja seja uma família . Ser família é um desafio. É viver nos limites, com intensidade. Quando penso na igreja lembro-me da minha família enquanto criança e também da família que tenho agora. Desejo que a igreja seja como uma família no sentido de ser um local de muitas risadas, pois é um lugar de alegria, onde nós podemos nos expressar com liberdade, mas sempre respeitando-nos mutuamente. Um lugar de intimidade, onde nos conhecemos e sabemos o que está a se passar com o outro. A igreja deve ser um lugar de transparência. Quando estamos tristes, nossa tristeza é vista e valorizada. Somos amparados e consolados.
É claro que não podemos esquecer que ser família implica viver a diversidade. Somos seres diferentes e temos que aprender a conviver uns com os outros. Precisamos ter consciência de que há momentos que devemos ceder para que não haja brigas. Contudo, esta diversidade que existe na família é que a torna bonita. Cada um pode se expressar de modo diferente, mas respeitando-se e valorizando o outro.
Espero que a igreja seja uma família e que nela seja vista a criatividade de cada um. Que todos sejam valorizados pelo que fazem. Que as habilidades de cada um sejam reconhecidas. Não existe um especial na família, pois todos são especiais. Eu particularmente desejo e espero que a igreja que eu sirvo como pastor seja uma família. Espero que a igreja seja um lugar de harmonia, confiança e amor.
É isto que este caboclo, lá do Amazonas espera da igreja que o Senhor lhe concedeu para servir como pastor.
[1] PETERSON, Eugne H. O pastor contemplativo: voltando a arte do aconselhamento espiritual 1ª Edição Textus
Editora, Rio de Janeiro, 2003